1 de jun. de 2009

Um café


Felipe foi levar na secretaria os documentos do Projeto Esperança. Pessoal, já chegou o carteiro? Nossa! É só conta pra pagar! Chica, dá pra fazer bolo pro lanche das crianças, amanhã? Alguém viu o Seu Antônio? Ele precisa assinar os cheques. Valderi, cadê a minha pipa? Que bom que é terça-feira, o almoço nos reúne e temos o “nosso domingo”!!! Os professores da prefeitura estão conectados com o trabalho da Casa este ano, que bom!!! Vanessa, Dona Catarina vai ao Posto de Saúde. A Sônia está muito atenta, tanto com a limpeza quanto com as crianças. Natália é ágil e criativa com a comida de cada dia. Quando Sandra e Patrícia vêm juntas, as gargalhadas chegam na frente. Eu vou bater nele, ele bateu no meu irmão. Xiiii! Ela só vem pra comer! Hoje não tem aula de novo na escola! Tô com dor de barriga!!! Ele pegou o meu lápis! Hoje tem material reciclável? Vim, mais Dona Lídia, buscar o reciclável e os alimentos do Mesa Brasil pra distribuir na comunidade. André vem pra reunião com os jovens empreendedores. E Mateus? E Maria? Patrícia e André vão fazer as conversas com Janete e Sara. Sandra, o livro com as histórias de vida da mulherada, sai ou não sai? O Dôio não tem aparecido! Credo, o carro do BOPE passou tão pertinho hoje que fiquei com medo, eles me olharam com cara feia. Professor, amanhã nós vamos na pracinha, né?! Mas, o que é sexy mesmo? Tem notícias da Daniele e das filhas? E do Tinho? Dodô, amanhã “vai tivé”?

E faz-se o silêncio.
Hora de respirar e acomodar dentro do peito as muitas vidas que pulsaram durante o dia todo na Casa Chico Mendes, acolhendo brilho, ritmos e trajetórias diversas.
Num rodamoinho de emoções e aprendizados, enquanto mãos hábeis recolhem água e a colocam para ferver, olhos que permaneceram fitam profundamente ora outros olhos ora o vazio. Um vazio preenchido, o todo existencial.
Ao compasso da água que ferve, com a mesma habilidade da lata o pó é retirado em colheradas generosas e repassado para o filtro, que se equilibra na velha garrafa térmica. O contato da água fervente com o pó produz delicioso aroma, magia pura que volta a atrair mais olhos e bocas. Impossível resgatar-se nesta experiência sem o café que vem com o pôr do sol.
E novamente a mesa é ocupada pelos que ficaram e pelos que vão chegando aos pouquinhos, estes com canecas em punho para brindar à vida com olhos, bocas, ouvidos e almas transformadas. Talvez seja no aconchego mesmo que se possa elaborar os ritmos e trajetórias das vidas que pulsam.
Respirar, beber um café e sintonizar olhares enche de significado o encontro das diferentes gentes que se entrelaçam na Casa. E assim a vida plena é resgatada, não importa se momentaneamente.
Este brinde ao pôr do sol reúne gente com sabedoria da vida e anos de luta comunitária; gente que transitou ou transita pela Academia, dialogando ou brigando com o saber formal; gente ainda criança, gente um pouco mais velha; gente mais convencional; gente aberta a todas as possibilidades; gente desiludida com as circunstâncias; gente esperançosa; gente que desistiu de acreditar; gente que ainda procura teto; gente que optou pela rua tendo asas nos pés; gente que acredita nas instituições; gente que quer revolucionar; gente que faz da dança a sua vida, que canta para sentir dignidade; gente que faz da depressão sua companheira; gente que se rende ou ressignifica o ilegal; gente que conjuga o viver no agora; gente que se acomodou à morte; gente que mata nesta hora a fome do pão, a fome da cidadania, a fome da beleza; gente que se sente fabulosa ao compartilhar uma caneca de café e ser acolhida em sua humanidade enquanto o sol se põe.
Acolher estas vidas que pulsam passa pelo desestabilizar-nos. Acolhê-las passa pelo muito que temos a aprender com as singularidades, passa pela resistência e beleza de assumirmos nossas incertezas. Passa por desconfiarmos das verdades, do absoluto.
Tomar um café em companhia na Casa Chico Mendes significa mudar as perguntas e freqüentemente, mudar o passo... Pois enquanto bebemos nosso café, o sol se prepara para renascer.

Sandra Crochemore Ribes
Julho de 2008

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